Um grupo de líderes anglicanos conservadores se reuniu nesta semana em Abuja, capital da Nigéria, para discutir a criação de uma nova estrutura de liderança espiritual dentro do anglicanismo. O encontro integra a primeira reunião formal da chamada Comunhão Anglicana Global, iniciativa ligada à Conferência Global de Futuros Anglicanos (GAFCON).
A reunião começou na terça-feira e segue até sexta-feira, reunindo bispos e líderes religiosos de diferentes países. Entre os objetivos do encontro está a escolha de um líder que atuará como “primeiro entre iguais” entre os primazes ligados ao movimento.
A iniciativa ocorre poucas semanas antes da posse da bispa Sarah Mullally, atual bispa de Londres, que deverá assumir em 25 de março como 106ª arcebispa de Canterbury. A cerimônia está marcada para a Catedral de Canterbury, na Inglaterra.
Movimento de ruptura
A criação da Comunhão Anglicana Global foi anunciada após a confirmação da escolha de Mullally para liderar a Igreja da Inglaterra. O movimento foi articulado pela GAFCON, organização formada em 2008 durante um encontro realizado em Jerusalém.
Desde sua fundação, a GAFCON reúne líderes anglicanos que defendem posições teológicas consideradas mais conservadoras, especialmente em debates sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo e sexualidade.
Na ocasião do anúncio da nova arcebispa, a organização afirmou que pretendia “reordenar” a Comunhão Anglicana, defendendo que a Bíblia seja o único fundamento doutrinário da igreja.
A escolha de Mullally foi criticada por integrantes do movimento, que apontaram seu apoio à bênção de casais do mesmo sexo como um fator de divisão dentro da comunidade anglicana.
Debate sobre cisma
Especialistas avaliam que a criação de uma liderança alternativa pode representar uma divisão institucional no anglicanismo.
O historiador Diarmaid MacCulloch, professor emérito de história da Igreja na Universidade de Oxford, afirmou em entrevista à BBC que a iniciativa pode ser interpretada como um cisma, mesmo que não seja oficialmente definida dessa forma.
“Isto é um cisma, mesmo que eles não queiram dizer isso”, afirmou MacCulloch.
Segundo ele, a reunião reúne líderes que defendem um modelo tradicional de liderança eclesiástica e que buscam afirmar uma identidade distinta dentro do anglicanismo global.
Críticas a Canterbury
O arcebispo de Ruanda, Laurent Mbanda, que preside o Conselho de Primazes da GAFCON, afirmou anteriormente que a escolha de Mullally pode ampliar divisões existentes dentro da Comunhão Anglicana.
Em declarações divulgadas no ano passado, Mbanda afirmou que a Sé de Canterbury historicamente desempenhou papel central na liderança espiritual da comunhão.
“Por mais de um século e meio, o Arcebispo de Canterbury funcionou não apenas como Primaz de Toda a Inglaterra, mas também como líder espiritual e moral da Comunhão Anglicana”, declarou.
Segundo ele, parte das igrejas ligadas ao movimento deixou de reconhecer a autoridade espiritual do cargo.
No Compromisso de Kigali, documento divulgado em 2023, líderes da GAFCON afirmaram que não consideram mais o arcebispo de Canterbury como referência de unidade para os primazes anglicanos.
Contexto recente
A posse de Sarah Mullally ocorrerá após sua confirmação oficial no mês passado na Catedral de São Paulo, em Londres. Durante a cerimônia, um participante protestou contra sua nomeação e foi retirado do local.
Recentemente, o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra também decidiu abandonar planos de instituir cerimônias independentes de bênção para casais do mesmo sexo, após um longo debate interno. Segundo o The Christian Post, as discussões refletem as tensões teológicas e institucionais que vêm marcando o anglicanismo global nos últimos anos.
