quinta-feira, 3 de setembro de 2026

IGREJA CRISTÃ EVANGÉLICA DE PARINTINS 61 ANOS NA AICEB

 


Pr. Humberto Ataíde Bonfim 

Igreja Cristã Evangélica da AICEB. Nem todas as Igrejas pertencentes ao Quadro Oficial da Aliança das Igrejas Cristãs Evangélicas do Brasil (AICEB)  nasceram com esse nome. A Igreja Cristã Evangélica de Parintins Amazonas, é uma igreja que nasceu com o nome CASA DE ORAÇÃO, e foi fundada em 1938 pela Missão Neotestamentária, que tinha sua sede na Argentina.

O Trabalho em Parintins foi plantado pelo Missionário José Penna Ribeiro, casado com dona Almerinda, uma serva de Deus muito servidora e ele um homem culto e intelectual, pregador destemido e que falava fluentemente a língua inglesa.

Quando ainda jovem, de Santarém foi estudar no Recife onde se preparou para o ministério, tendo passado também uma temporada na Paraíba, onde conheceu muitos irmãos da Igreja Congregacional, que um dia viriam embora para Santarém Pará  e Parintins Amazonas, onde anos mais tarde se congregariam com ele.

Já morando e trabalhando na seara do Mestre em Parintins, José Penna conheceu um casal de missionários vindos da Inglaterra, Alexandre e Iva Hutschson, que evangelizavam sem muito sucesso na cidade de Maués, Amazonas, não tão distante de Parintins. José Penna Ribeiro os desafiou a que viessem para Parintins ajudar no trabalho e o casal veio.  Não muito tempo depois os ingleses receberam o grupo de irmãos, na maioria paraibanos como eram chamados, e passaram a cuidar dos mesmos reunindo-os nas residências, na Ilha de Parintins. Enquanto isso, José Penna foi para a localidade rural denominada Miriti, à margem do Rio Amazonas, interior do município para começar um trabalho missionário, pois existia ali muitas famílias e um Projeto Agropecuário do governo do Amazonas, portanto um lugar estruturado com boas casas propício para iniciar uma igreja.

Tendo o Seu Alexandre e dona Iva retornado à Inglaterra para visitas aos familiares e mantenedores e fazer divulgação da obra, agora no novo campo,  pelo ano de 1951, veio assumir o trabalho o jovem missionário canadense solteiro, Dionísio Pape. Encontrando o grupo de crentes sem um local próprio para congregar,  construiu com recursos de fora um bonito templo em terreno doado pelo casal de convertidos José Terso Mendes e Rocilda Nina, à Rua Silva Meireles, ao lado de sua residência. Ele,  funcionário público lotado na Mesa de Rendas do Estado. Ela, de fino trato, de família tradicional da cidade. O local ainda hoje é justamente onde se localiza aquele templo.   

O ano era 1953. Com o retorno de Alexandre e Iva, ao encontrar o templo construído por Dionízio, repreenderam o jovem missionário, não aprovando a construção doe templo que realizara, porque a Missão Neotestamentária, à qual serviam, não adotava construções de templos nem qualquer outra forma de governo regimental, que não fosse o da igreja apostólica primitiva do primeiro século, realizando os cultos de casa em casa. Não adotavam estatutos nem atas ou quaisquer outros registros oficiais. Quando o máximo podiam fazer, era construir ou alugar uma casa comum, daí o nome CASA DE ORAÇÃO. O local de reuniões dos crentes para adoração e comunhão e ensino da Palavra, tinha de se restringir à sala de uma casa normal com o nome na fachada externa: Igreja Casa de Oração da Missão Neotestamentária.

A desavença dos dois missionários resultou na saída de Dionísio Pape para outra Missão e da cidade de Parintins. Tornou-se um dos diretores da ALIANÇA BÍBLICA UNIVERSITÁRIA (ABU) que passou a trabalhar com estudantes universitários em Universidades em São Paulo e outras cidades do Brasil implantando a Instituição.

Naquele tempo a Casa de Oração tinha tomado conhecimento da existência de um Instituto Bíblico em São Luís do Maranhão.  Para lá foram enviados , a fim de prepararem-se como obreiros, alguns jovens da igreja sendo eles: Rivaldo Melo, que se tornou pastor, Élcia Reis e Silva, serviu muitos anos no Instituto Bíblico e Seminário no corpo docente como tesoureira, professora de teoria musical,  e Cadetes e foi coordenadora da educação do Estado do Amazonas no Colégio Nossa Senhora do Carmo em Parintins, até se aposentar. Fernando Maia,  Diácono dedicado, professor da EBD e foi Chefe da Mesa de Rendas do Estado do Amazonas em Nhamundá e na cidade de Parintins. Recentemente foi ordenado Pastor Emérito da Igreja de Parintins. Edna Barbosa, tornou-se escrevente juramentada do Cartório do Primeiro Ofício na Comarca de Parintins. Laura Ribeiro, filha de um irmão de Jose Penna, mudou de igreja tornando-se Adventista do Sétimo Dia.

Com a ida desses jovens para São Luís e após os estudos, sua volta para o Amazonas, tornaram-se conhecedores das doutrinas e práticas da denominação Aliança das Igrejas Cristãs Evangélicas do Norte do Brasil (AICENB) como era chamada.

Com o abalo nos relacionamentos dos missionário Dionisio e o casal de ingleses Alexandre e Iva, a igreja foi atingida e aconteceu uma cisão entre os irmãos da igreja, ficando a maioria favorável a que se desligassem da Missão Neotestamentária e solicitaram oficialmente o seu ingresso, ou melhor, a sua filiação na AICENB, já que todos obreiros formados em São Luís foram favoráveis.  Aceitos,  as autoridades denominacionais em São Luís providenciaram a vinda de uma comissão a Parintins, sendo eles João Canfield, Leslie Jantz, e Abdoral Silva.  Como sendo do agrado e acordo de ambas as partes, foi a igreja filiada à nova denominação no dia 24 de outubro de 1965.

O grupo dissidente, muito contrariado com o que acontecera, separou-se da maioria,  alugou uma casa onde por muitos nos ficou reunindo o pequeno grupo com o nome de outrora.  

Muitos anos depois, Dona Iva Já viúva, aposentada residindo na Inglaterra, veio ao Brasil ainda com mágoas no coração pelo que acontecera, mas em sua vinda a Parintins  recebeu a minha visita que a convidei para uma visita à Igreja da Rua Silva Meireles que a aceitou. Eu era o pastor da Igreja, diz Lucimar Rocha. Em sua visita à nossa igreja numa EBD abraçou os irmãos e foi abraçada por todos num gesto de muito carinho e reconciliação.  Acredito que a mesma voltou para a sua terra aliviada e pouco tempo depois faleceu.

A Igreja Cristã Evangélica de Parintins e em Parintins comemorou nessa semana 28 a 30 de agosto,  61 anos de filiação à AICEB.  Foi o seu primeiro pastor, Rivaldo  Melo empossado em 1965 e de lá para cá tantos outros pastores já passaram por essa Igreja, como José Ferreira Leite, casado com uma filha da própria igreja, Edna Barbosa Leite. José Lucimar da Rocha, sua primeira igreja, casou com uma filha a igreja, Lenir; Pr. Humberto Bonfim casou com Claudeti, filha da igreja com dois pastorados na igreja. O primeira gestão com três anos e a segunda já vai com 34 anos, perfazendo o ministério mais prolongado de 37 anos de bons bons serviços prestados só na igreja de Parintins  com mais 3  anos de pastoreio na Região Nordeste, na Igreja Buenos Aires em Teresina e 4 anos na Igreja Cidade Nova 5 em Ananindeua/Belém perfazendo o total 43 anos de ministério. Foram ainda pastores em Parintins  Angelino, Antonilson, José Carlos, que também casou com uma filha da Igreja, Mara Dalila. Foram os pastores que ficaram mais tempo na igreja, Lucimar quase 10 anos e Humberto 43. Já perto dos 70 anos, com vários mandatos de presidente da região, vice-presidente e conselheiro,  já pensa em jubilação, mas com o projeto de continuar fazendo missões, que é sua paixão.


A Conferencia de aniversário teve seu início nas noite de 28 de agosto na congregação da Vila Amazônia e foi pregador o presidente da Região da Amazônia Ocidental, Pr. Nemias Dias Azevedo, que foi recentemente reconduzido ao cargo na última convenção regional.






 Dias 29 e 30 de Agosto no templo sede no centro


















FOTOS E VÍDEO ENVIADOS POR CLAUDETI

sábado, 15 de agosto de 2026

Sociedade Bíblica do Brasil: organização dá início à construção histórica

 


A Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) acaba de dar um importante passo rumo à realização da Cidade da Bíblia com a oficialização da aquisição da área onde o novo complexo será erguido.

O ato de transferência da escritura pública aconteceu na sede da instituição, em São Paulo, e contou com a presença de dirigentes da organização, representantes de igrejas, parceiros, conselheiros e autoridades, marcando o início de uma fase promissora para a expansão da missão bíblica.

O futuro empreendimento ocupará uma área situada no km 42 da Rodovia Castello Branco, no município de Santana de Parnaíba (SP). De acordo com a SBB, a localização foi definida estrategicamente para acompanhar o crescimento institucional e ampliar sua capacidade de produção, distribuição e promoção do acesso às Sagradas Escrituras nos próximos anos.

Durante a solenidade, o reverendo Erní Seibert, presidente da SBB, compartilhou os objetivos por trás da Cidade da Bíblia e enfatizou que o projeto é a materialização de um sonho alimentado ao longo de décadas por igrejas, apoiadores e colaboradores da entidade. Em sua avaliação, a iniciativa surge com o firme propósito de potencializar a missão de tornar a Palavra de Deus cada vez mais acessível a todos.

“Este projeto é fruto de planejamento, oração e fé em Deus. Nossa expectativa é que a Cidade da Bíblia contribua para expandir o impacto das Escrituras e transformar inúmeras vidas”, declarou.

O ápice da cerimônia foi a assinatura da Escritura Pública de Compra e Venda do imóvel, realizada diante do tabelião responsável. Em seguida, o antigo proprietário da área, Faeis Kadri, fez a entrega simbólica do documento ao diretor-presidente da SBB, que o encaminhou ao presidente do Conselho Deliberativo, pastor Esequias Soares da Silva, oficializando a incorporação do terreno ao patrimônio da instituição.

O pastor Esequias Soares da Silva destacou que a conquista do terreno é reflexo de um esforço coletivo, viabilizado pela colaboração entre igrejas, mantenedores e colaboradores da SBB. Segundo ele, o novo complexo se tornará um polo estratégico para impulsionar a produção bíblica e dar prosseguimento ao legado da organização.

Ao refletir sobre a negociação, Faeis Kadri revelou que passou a enxergar a real grandeza do projeto à medida que conhecia mais a fundo o trabalho realizado pela Sociedade Bíblica do Brasil. “Compreendi que não se tratava de uma simples transação imobiliária, mas de um empreendimento de amplo espectro e profunda relevância social e espiritual”, pontuou.

Outro instante de grande significado foi a assinatura de um exemplar da Bíblia por todos os convidados. O volume será depositado junto à pedra fundamental da Cidade da Bíblia, servindo como marco memorial da participação daqueles que testemunharam o nascimento do projeto.

A cerimônia foi encerrada com uma oração conduzida pelo primeiro vice-presidente do Conselho Deliberativo, Antonio Cabrera Mano Filho, que reforçou a importância de perseverar na missão de levar as Escrituras a um público cada vez mais amplo.

Fundada em 1948, a Sociedade Bíblica do Brasil considera a Cidade da Bíblia um dos marcos mais significativos de sua trajetória recente. Para além da ampliação de sua infraestrutura operacional, o novo complexo pretende consolidar um centro dedicado ao fortalecimento da causa bíblica, viabilizando que igrejas e comunidades no Brasil e no exterior tenham acesso cada vez mais amplo à Palavra de Deus. Comunhão.

Fonte:




terça-feira, 28 de julho de 2026

Presbiteriana aprova inclusão de pessoas homoafetivas como membros e ministros

 A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) aprovou, durante sua XXI Assembleia Geral Ordinária, realizada entre os dias 17 e 19 de julho em Salvador (BA), uma deliberação que autoriza a recepção de pessoas homoafetivas como membros das comunidades locais e, quando observados os critérios vocacionais, também para o exercício do ministério pastoral.

Em nota oficial, a denominação esclareceu que a decisão não institui uma norma uniforme para todas as igrejas da IPU. O texto destaca que a Assembleia “reafirmou que cabe a cada Presbitério e a cada igreja local exercer, de forma responsável e pastoral, seu discernimento comunitário, fundamentado na oração, no estudo e no diálogo” sobre a inclusão e participação dessas pessoas na vida da igreja.

O Conselho Coordenador também ressaltou que a medida preserva um princípio histórico da denominação: “A Assembleia não estabeleceu uma imposição uniforme para toda a IPU. Ao contrário, reafirmou o princípio histórico da IPU de respeito à autonomia das comunidades locais e dos presbitérios, preservando a comunhão denominacional mesmo diante de diferentes compreensões sobre o tema.”

Compromisso contra a discriminação

A assembleia também reafirmou o posicionamento da igreja contra a discriminação. O documento recomenda a rejeição de “toda forma de violência, estigmatização, exclusão ou discurso de ódio dirigido a pessoas homoafetivas” e orienta as comunidades a promoverem ambientes de escuta, cuidado pastoral e convivência respeitosa.

Outra decisão aprovada foi a rejeição às chamadas terapias de reversão sexual. Segundo o relatório, “não haja, nas igrejas da IPU, abordagens relacionadas às chamadas terapias ou tratamentos de reversão da orientação sexual”, por entender que a ação pastoral deve se basear no respeito à dignidade humana e no cuidado pastoral.

Processo de escuta e estudo

A decisão foi tomada após três anos de trabalho da Comissão Especial para Assuntos de Gênero, criada pela IPU para estudar a questão. O grupo ouviu representantes de igrejas, presbitérios e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, além de analisar documentos oficiais da denominação e promover debates antes de apresentar o relatório à Assembleia.

Em sua manifestação final, o Conselho Coordenador afirmou que a medida busca preservar a unidade da igreja: “A decisão da XXI Assembleia Geral Ordinária busca promover a unidade da Igreja sem anular a diversidade presente em seu interior. Com: Exibir Gospel.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

CONHEÇA A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NASCIMENTO DA VOZ DA POROROCA NA SUA PRIMEIRA VERSÃO

 Antes de tudo, convido você a visitar mais uma importante publicação do BLOG DO EVERARDO TORRES. Batalhense como eu, Everardo é um apaixonado pesquisador da história de nossa terra e, com dedicação admirável, vem resgatando documentos, relatos e acontecimentos que ajudam a preservar a memória de Batalha para as atuais e futuras gerações.

Nesta oportunidade, ele nos leva de volta ao cenário político de 1954, destacando uma das disputas mais marcantes da história do município. De um lado, Antônio Machado Melo, candidato à Prefeitura pela União Democrática Nacional (UDN); do outro, Magno Pires Alves, representante do Partido Social Democrático (PSD). Dois grandes nomes que marcaram época e mobilizaram intensamente a população batalhense.

A matéria também relembra um fato curioso e de grande valor histórico: a criação de dois serviços de alto-falantes que animaram e defenderam seus respectivos candidatos durante toda a campanha eleitoral. A Voz de Santo Antônio, conduzida pelo locutor José Murilo, e a inesquecível Voz da Pororoca, comandada com coragem e determinação por Osmar Savedra, descendente de indígenas, vindo do Amazonas. Foi justamente dessa iniciativa que nasceu o nome "Pororoca", que permanece vivo na memória e na história de Batalha.

É uma leitura que vale a pena. Conhecer o passado é compreender melhor as nossas raízes e valorizar aqueles que ajudaram a construir a história do nosso município.

Leia a matéria completa no BLOG DO EVERARDO TORRES.

Clique no link:

As Cornetas da Política: O Duelo de 1954 e a Origem d'A Pororoca        









terça-feira, 7 de julho de 2026

HINO OFICIAL DA ICEBATALHA 14 junho 2026

 Hino Oficial da Igreja Cristã Evangélica Batalha em Batalha - PI.

Composição do Pr. Lucimar Rocha, dedicado ao Senhor Jesus Cristo, para o seu louvor e glória. Relata a história da Igreja desde a Chegada dos missionários irlandeses em nosso torrão em 1959 anunciando o evangelho em nossa região pela década de 1960. Os dois missionários chegaram na década de 50, ambos vieram solteiros. Já evangelizando em Piracuruca Piauí e arredores, pouco tempo depois voltaram à Irlanda do Norte, Wesley Gould a Port Down onde casou com Winnie, Edmundo voltou a Belfast onde casou com Marie. Salienta-se que ambos voltaram e casaram em datas bem diferentes, mas o ideal era o mesmo, servirem ao Senhor no Piauí. Já em 1962 o jovem Lucimar, de uma das famílias convertidas em Batalha, aceitou a Cristo e foi estudar para ser pastor. Como filho da congregação de Batalha tempos depois veio assumir a igreja, onde já está com 36 anos de ministério só na igreja local e 53 anos de ministério pastoral servindo também em outros lugares. Na foto Lucimar (de gravata) e esposa Lenir estão com três irmãos da primeira família a se converter: João de Deus, Raimundo Nonato e Francisca Florindo. Deus Seja Louvado.



sábado, 27 de junho de 2026

A ENGRENAGEM, O VIOLÃO E O ALTAR

 


Capítulo I: O Palhaço, o Relojoeiro e o Ritmo de uma Vila

​A história de Batalha guarda em suas engrenagens a memória de homens que traduziram a dureza da vida em arte. Em 1930, a poeira das estradas trouxe para o município um jovem que trazia na bagagem o picadeiro e o mistério do tempo. Fausto Fortunato da Rocha, piauiense de Parnaíba, era filho de tabelião, mas trazia as mãos talhadas para outras escritas: a precisão dos ponteiros e o dedilhar das cordas. Cedo, rompeu com o destino burocrático das Letras para seguir o chamado do circo, dando vida ao Palhaço Rochinha.

​Quando o circo partiu de Batalha, Fausto decidiu ficar. O homem que fazia rir desceu do picadeiro para assumir a gravidade de uma profissão que exigia paciência cirúrgica: tornou-se o relojoeiro da cidade. De seus consertos de relógios de algibeira, parede e despertadores, nasceu o sustento para a numerosa prole de dez filhos, fruto de sua união duradoura com Altair Santos.

​Mais do que regular as horas dos cidadãos em sua oficina, Fausto era o guardião do tempo coletivo. Era ele quem subia semanalmente os degraus da torre da Igreja Matriz para alimentar os pêndulos e dar corda na velha engrenagem que ditava o ritmo da cidade. À noite, o rigor do artesão dava lugar ao lirismo do violonista, consagrado como um dos melhores do Piauí. Sua destreza nas cordas era tamanha que comovia até mesmo a maior referência musical da história de Batalha em todos os tempos: o célebre saxofonista Manoel Fabiano. Diante da interpretação tocante que Fausto fazia da autêntica composição, a valsa "Momentos Felizes", o próprio mestre Manoel Fabiano fez questão de declarar, anos mais tarde, que jamais havia conhecido alguém capaz de solar aquela melodia com a mesma alma e maestria que o compadre Fausto.

​Capítulo II: O Censo de 1950 e o Território da Intolerância

​Para compreender o drama que cercaria a memória de Fausto, é preciso olhar para a Batalha de meados do século XX através das lentes frias, mas reveladoras, da estatística. O Recenseamento Geral de 1950 desenha um cenário de absoluta e esmagadora homogeneidade cultural e espiritual no município, registrando que a população era composta por 12.889 católicos romanos, enquanto apenas 27 pessoas pertenciam a outras religiões.

​Estes dados revelam que qualquer manifestação de fé que se afastasse das diretrizes da Igreja Romana representava uma quase invisibilidade estatística de meros 0,2% de toda a população local. Viver e professar uma fé dissidente em um território onde praticamente a totalidade dos habitantes comungava da mesma matriz tradicional significava carregar o peso do estranhamento, do isolamento social e, não raro, da aversão institucional. Fausto e sua família testemunharam e sentiram de perto as fronteiras invisíveis erguidas por essa maciça unanimidade religiosa ao longo das décadas.

​Capítulo III: O Dia em que a Cidade Enterrou o Preconceito

​O tempo, que Fausto tanto vigiava, cobrou o seu preço de forma trágica. Em 2 de fevereiro de 1970, aos 63 anos, o relojoeiro fez sua última viagem a serviço no município de União. Vítima de um assalto brutal, foi assassinado e despido de tudo o que tinha. O choque da morte violenta, contudo, foi sucedido por um ultraje ainda maior na chegada de seu corpo a Batalha.

​O Cemitério de São Gonçalo era, à época, o único campo santo da cidade. Sob a alegação de que Fausto "pertencia a outra religião" — sendo uma das poucas vozes daquela pequenina minoria histórica que desafiava a homogeneidade local —, a proprietária do local negou a autorização para o seu sepultamento junto à Igreja. A rigidez dogmática pretendia estender a exclusão social para além da vida, negando ao cidadão o direito ao descanso na terra que ele ajudara a cronometrar.

​Mas a história de Batalha não se dobrou à intolerância. Naquela mesma noite de fevereiro de 1970, a sociedade batalhense operou um milagre de sensibilidade. Rompendo o preconceito que imperava nas estruturas, uma grande multidão se reuniu em revolta contra a discriminação. Em um ato de desobediência civil e profundo afeto, o povo exumou o corpo de Fausto e o sepultou, em definitivo, no centro do cemitério. A memória do relojoeiro e violonista uniu a cidade acima das divisões de credo. Posteriormente, os Poderes Executivo e Legislativo oficializaram o resgate histórico, batizando uma das ruas de Batalha com seu nome através de decreto.

​Capítulo IV: O Legado Coletivo — Da Poesia ao Altar

​Décadas após a tragédia de 1970, a Batalha contemporânea abriga mais de uma dúzia de congregações evangélicas, desenhando um quadro de convivência, pluralidade e abertura cultural que parecia impossível no rígido cenário de 1950. Essa transformação profunda encontra sua síntese perfeita na herança deixada pelos filhos de Fausto Fortunato da Rocha.

​A dor daquela noite de exclusão transmutou-se em duas das maiores forças identitárias do município:

  • A Poesia da Terra: José Nicodemos da Rocha, filho de Fausto (hoje já falecido), transformou o amor pela sua terra em eternidade. É de sua autoria a riquíssima e lírica poesia do Hino de Batalha, uma obra-prima cantada com profundo orgulho por todos os batalhenses, unindo o povo sob a mesma identidade musical que seu pai tanto cultivava no violão.
  • A Fé no Altar: Lucimar Rocha, o filho que resgatou a biografia do pai e assinou a crônica de sua memória, tornou-se Pastor da Igreja Cristã Evangélica de Batalha. No mesmo município onde o sepultamento de seu pai foi inicialmente vetado pela barreira do dogma, o filho hoje estende as mãos no altar, liderando uma comunidade consolidada e respeitada.

​A saga da família Rocha é o espelho da própria evolução histórica de Batalha. O tempo, outrora vigiado pelo velho relojoeiro na torre da matriz, encarregou-se de dar corda na história, transformando o silêncio do preconceito na melodia do hino e na liberdade do altar.


Fonte: Blog do Everardo


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...