Capítulo I: O Palhaço, o Relojoeiro e o Ritmo de uma Vila
A história de Batalha guarda em suas engrenagens a memória de homens que traduziram a dureza da vida em arte. Em 1930, a poeira das estradas trouxe para o município um jovem que trazia na bagagem o picadeiro e o mistério do tempo. Fausto Fortunato da Rocha, piauiense de Parnaíba, era filho de tabelião, mas trazia as mãos talhadas para outras escritas: a precisão dos ponteiros e o dedilhar das cordas. Cedo, rompeu com o destino burocrático das Letras para seguir o chamado do circo, dando vida ao Palhaço Rochinha.
Quando o circo partiu de Batalha, Fausto decidiu ficar. O homem que fazia rir desceu do picadeiro para assumir a gravidade de uma profissão que exigia paciência cirúrgica: tornou-se o relojoeiro da cidade. De seus consertos de relógios de algibeira, parede e despertadores, nasceu o sustento para a numerosa prole de dez filhos, fruto de sua união duradoura com Altair Santos.
Mais do que regular as horas dos cidadãos em sua oficina, Fausto era o guardião do tempo coletivo. Era ele quem subia semanalmente os degraus da torre da Igreja Matriz para alimentar os pêndulos e dar corda na velha engrenagem que ditava o ritmo da cidade. À noite, o rigor do artesão dava lugar ao lirismo do violonista, consagrado como um dos melhores do Piauí. Sua destreza nas cordas era tamanha que comovia até mesmo a maior referência musical da história de Batalha em todos os tempos: o célebre saxofonista Manoel Fabiano. Diante da interpretação tocante que Fausto fazia da autêntica composição, a valsa "Momentos Felizes", o próprio mestre Manoel Fabiano fez questão de declarar, anos mais tarde, que jamais havia conhecido alguém capaz de solar aquela melodia com a mesma alma e maestria que o compadre Fausto.
Capítulo II: O Censo de 1950 e o Território da Intolerância
Para compreender o drama que cercaria a memória de Fausto, é preciso olhar para a Batalha de meados do século XX através das lentes frias, mas reveladoras, da estatística. O Recenseamento Geral de 1950 desenha um cenário de absoluta e esmagadora homogeneidade cultural e espiritual no município, registrando que a população era composta por 12.889 católicos romanos, enquanto apenas 27 pessoas pertenciam a outras religiões.
Estes dados revelam que qualquer manifestação de fé que se afastasse das diretrizes da Igreja Romana representava uma quase invisibilidade estatística de meros 0,2% de toda a população local. Viver e professar uma fé dissidente em um território onde praticamente a totalidade dos habitantes comungava da mesma matriz tradicional significava carregar o peso do estranhamento, do isolamento social e, não raro, da aversão institucional. Fausto e sua família testemunharam e sentiram de perto as fronteiras invisíveis erguidas por essa maciça unanimidade religiosa ao longo das décadas.
Capítulo III: O Dia em que a Cidade Enterrou o Preconceito
O tempo, que Fausto tanto vigiava, cobrou o seu preço de forma trágica. Em 2 de fevereiro de 1970, aos 63 anos, o relojoeiro fez sua última viagem a serviço no município de União. Vítima de um assalto brutal, foi assassinado e despido de tudo o que tinha. O choque da morte violenta, contudo, foi sucedido por um ultraje ainda maior na chegada de seu corpo a Batalha.
O Cemitério de São Gonçalo era, à época, o único campo santo da cidade. Sob a alegação de que Fausto "pertencia a outra religião" — sendo uma das poucas vozes daquela pequenina minoria histórica que desafiava a homogeneidade local —, a proprietária do local negou a autorização para o seu sepultamento junto à Igreja. A rigidez dogmática pretendia estender a exclusão social para além da vida, negando ao cidadão o direito ao descanso na terra que ele ajudara a cronometrar.
Mas a história de Batalha não se dobrou à intolerância. Naquela mesma noite de fevereiro de 1970, a sociedade batalhense operou um milagre de sensibilidade. Rompendo o preconceito que imperava nas estruturas, uma grande multidão se reuniu em revolta contra a discriminação. Em um ato de desobediência civil e profundo afeto, o povo exumou o corpo de Fausto e o sepultou, em definitivo, no centro do cemitério. A memória do relojoeiro e violonista uniu a cidade acima das divisões de credo. Posteriormente, os Poderes Executivo e Legislativo oficializaram o resgate histórico, batizando uma das ruas de Batalha com seu nome através de decreto.
Capítulo IV: O Legado Coletivo — Da Poesia ao Altar
Décadas após a tragédia de 1970, a Batalha contemporânea abriga mais de uma dúzia de congregações evangélicas, desenhando um quadro de convivência, pluralidade e abertura cultural que parecia impossível no rígido cenário de 1950. Essa transformação profunda encontra sua síntese perfeita na herança deixada pelos filhos de Fausto Fortunato da Rocha.
A dor daquela noite de exclusão transmutou-se em duas das maiores forças identitárias do município:
- A Poesia da Terra: José Nicodemos da Rocha, filho de Fausto (hoje já falecido), transformou o amor pela sua terra em eternidade. É de sua autoria a riquíssima e lírica poesia do Hino de Batalha, uma obra-prima cantada com profundo orgulho por todos os batalhenses, unindo o povo sob a mesma identidade musical que seu pai tanto cultivava no violão.
- A Fé no Altar: Lucimar Rocha, o filho que resgatou a biografia do pai e assinou a crônica de sua memória, tornou-se Pastor da Igreja Cristã Evangélica de Batalha. No mesmo município onde o sepultamento de seu pai foi inicialmente vetado pela barreira do dogma, o filho hoje estende as mãos no altar, liderando uma comunidade consolidada e respeitada.
A saga da família Rocha é o espelho da própria evolução histórica de Batalha. O tempo, outrora vigiado pelo velho relojoeiro na torre da matriz, encarregou-se de dar corda na história, transformando o silêncio do preconceito na melodia do hino e na liberdade do altar.
Fonte: Blog do Everardo






